Ruta 40 Total – Diário de bordo da viagem de Wagner Lima

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Nasce mais um desafio sobre duas rodas: percorrer a lendária Ruta 40 em sua totalidade, de Sul a Norte, do km 00 em Cabo Virgines até o km 5120 em La Quiaca, no seu traçado mais original.


Bariloche – 2 dias de descanso

Bariloche nos trouxe de volta ao cotidiano. Cidade grande, turística e do consumo. Belas paisagens e ótimos bares e restaurantes para se deliciar.Aproveitei para um bate-e-volta a Osorno (Chile) para trocar os pneus e curtir a estrada belíssima do Paso Cardenal Samoré.

Oscar Fleury ficou em Bariloche para arrumar o pneu traseiro e o serviço feito pelo borracheiro de lá terminaria por comprometer todo o pneu. No dia seguinte seguiremos pela Ruta 40 na região dos 7 lagos e planejamos dormir em Chos Malal.

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Bariloche a Chos Malal pela Ruta dos 7 Lagos.

Atualmente, a Ruta 40 integrou a famosa Ruta dos 7 Lagos em seu trajeto. Saímos de Bariloche e passamos por belas paisagens no sentido de Villa Angostura, San Martin de los Andes e Junín de los Andes. Aqui contornamos diversos lagos, fizemos um sem-número de curvas e ainda pegamos um pequeno trecho de terra (para minha surpresa). Uma chuvinha fraca nos acompanhou até Junín de los Andes, para depois abrir um sol escaldante. Já começamos a perceber uma nova mudança no eco-sistema e clima.

Atingimos o KM 2570 neste dia, ou seja, havíamos percorrido metade de nosso desafio. Encontrar o marco foi uma alegria só! Continuamos por via asfaltada até Chos Malal, com uma parada para abastecimento em Zapala. O calor aumentou e percebemos que estávamos, definitivamente, em uma nova fase da Ruta 40.

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El Calafate – 01/12/2014 – Dia de “Descanso”

O mês de dezembro começando e tiramos o seu primeiro dia para curtir El Calafate. Com eu e o Oscar Fleury já conhecemos a cidade e seus principais passeios, decidimos fazer o trekking no gelo, sobre o glaciar Perito Moreno.

Fomos às agências de viagens e todas davam como lotado o trekking para o dia seguinte….. até que encontramos um argentino que havia morado em Belo Horizonte e aprendido o “jeitinho brasileiro”. Ele fez uns contatos e nos encaixou num trekking privativo. Ou seja, seremos dois “penetras”.

Pegamos as motos cedo e nos dirigimos ao Puerto Bajo Sombras – dentro o parque Perito Moreno e a 75 kms da cidade, para embarcar rumo ao glaciar. No caminho fomos agraciados com um belo arco-íris, mas que era prenúncio de chuva.

Para nossa grata surpresa, estávamos agregados a um grupo de 25 jovens – meninos e meninas entre 16 e 18 anos – de várias nacionalidades em intercâmbio pelo Rotary Club. Identifiquei ao menos as seguintes nacionalidades: francesa, italiana, inglesa, alemãs, finlandesa e irlandesa.

Éramos dois avôs num grupo de jovens elétricos que exalavam testosterona em estado puro. Maravilhoso! Um sopro de juventude para arejar a nossa semi senilidade.

A chuva e o vento aumentaram e o trekking ficou radical, bem ao estilo do grupo. Grampões nos pés e fomos nós geleira acima. Após infindáveis sobe-e-desce no gelo, uma pausa para saborear um whisque com gelo de 5.000 anos (o whisque talvez não tive os 12 necessários) e alguns alfajores.

Retornamos ao abrigo duas horas mais tarde, ainda sob chuva e vento, mas com a sensação de ter desfrutado de uma experiência única. À noite foi só para descansar, pois chegamos “quebrados” no hotel. Resolvemos suprimir El Chaltén – nos dois já conhecemos o lugar – e ganhar um dia mais à frente.
Hora de arrumar as tralhas que amanhã são 760 kms até Rio Mayo e com dois trechos de rípio.

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03/12/2014 – Adivinha qual moto está com o pneus furado? Brincadeira à parte e antes que alguém crie discórdia em nossa harmoniosa viagem, quero tirar o chapéu e reverenciar o piloto Oscar Fleury. Um parafuso entrou no pneu traseiro da Godofreda, baixando a pressão praticamente a zero e o parceiro só alterou o controle de tração para “Rain”, subiu nas pedaleiras e tocou na “caixa de brita” por mais 15 kms até a cidade. Parar prá quê? Valeu parceiro! Aprendendo com você as lições

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Rio Gallegos a El Calafate – 495 kms – 30/11/2014

“Hoy el dia está mui ventoso”. Com esse presságio do frentista que abasteceu nossas motos em Rio Gallegos começamos o segundo dia na Ruta 40. E nada como ter experiência e domínio sobre o que se fala. O frentista estava corretíssimo!

Já nos primeiros 120 kms ainda de asfalto estávamos andando totalmente inclinados para a direita. Isso porque o vento soprava da cordilheira para o oceano, o que significa vento gelado.

Entramos no rípio e o vento só aumentava de velocidade. A luta era não perder o trilho, manter uma velocidade que rompesse a força do vento, ficar de olho nas ovelhas e guanacos em volta da estrada e não cair.

Por duas oportunidades cheguei a escolher de qual lado saltaria da moto, mas felizmente recobrei a estabilidade.
Rajadas de vento quase nos tirava a moto de baixo e numa manobra mais lenta a Godofreda no Oscar Fleury tombou. Levantar a moto foi um esforço conjunto e ao extremo.

Rodamos 172 kms sem que qualquer veículo cruzasse conosco e até chegarmos próximo à cidade de 28 de Noviembre (258 kms) avistamos somente 4 carros. Creio que todos sabiam que não era o momento de estar na Ruta. Só nos que não!

Chegamos exaustos em 28 de noviembre. Abastecemos, tomamos um café para aquecermos e seguimos para o destino final: El Calafate. Ainda teríamos um trecho de 60 kms de rípio, mas agora com pouco vento e torcendo a borrachinha. Fomos à forra!

Agora uma dia de pausa e programação de uma caminhada (trekking) no gelo sobre o glaciar Perito Moreno. A conferir.

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Rio Colorado a Comodoro Rivadávia – 944 kms – 27/11/2014

Agora a Patagônia começou a apresentar as suas credenciais. Saimos com a temperatura em 13° C rumo a Ruta 03, em San Antônio Oeste. A temperatura subiu e estabilizou-se entre 18° e 20° C.

Abastecemos em San Antonio e tomamos a 03 rumo a Puerto Madryn. Como diz o guia turístico argentino, retas grandes e monótonas. O vento começa também a dar as suas caras.

Cshegamos em Puerto Madryn no horário do almoço e decidimos rever a cantina “El Naútico”, melhor restaurante de fruto do mar da cidade. Show de bola! Comemos uma paella nota 1000.

Voltamos para a monotonia da Ruta 03 e após mais um abastecimento chegamos em Comodoro Rivadávia. No trecho final já pegamos ventos laterias moderados e o consumo de combustível desabou: 14 – 15 km/litro. Claro que estamos numa tocada bem forte, pois senão não chegamos. Temperatura baixou para 9° C e o final do dia ficou bem nublado.

Os pneus Karoo 3 estão me surpreendendo após 6.000 kms, mas seguramente terei que troca-los na passagem por Bariloche. O percurso foi longo e estamos precisando de um bom descanso.

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Cabo Virgines – KM ZERO da Ruta 40 – 29/11/2014

Terminado o longo trecho de descolamento – mais de 5.000 kms – finalmente é chegado o grande dia: início do Desafio Ruta 40 Total. Logo cedo fomos procurar uma borracharia para trocar os pneus da Godofreda – do Anakee 3 para o Tourance Wild – e uma forma de despachar os pneus retirados para La Quiaca, no final da Ruta 40.

Próximo ao meio-dia pegamos a estrada para o marco zero da 40, não sem antes sermos parados pela policia caminera para registros e formalidades. Mais 6 kms no asfalto e começaram os 120 kms de rípio até o farol de Cabo Virgines.

A adrenalina nas alturas e a alegria nas núvens. A estrada é larga e bem cuidada, o que garante a diversão da pilotagem. No percurso avistamos as estancias El Condor, da Benetton, e a Monte Dinero, que oferece hospedagem a quem quiser conhecer melhor a zona.

Além do farol e das placas indicativas no Km 0, ali tem uma cafeteria com o sugestivo nome de Al fin y al Cabo, onde almoçamos e nos protejemos dos ventos mais fortes.

Estava realizado o primeiro objetivo do nosso desafio e a de estar naquele lugar foi indescritível. Fato que ficará marcado definitivamente em nossas vidas.

Para nossa surpresa, o pneu traseiro da moto do Fleury baixou a pressão. Pesquisamos minunciosamente e nada encontramos de furo ou objeto estranho. Optamos por injetar o meu reparador para encher o pneu e o resultado foi que rodamos até Rio Gallegos novamente sem qualquer problema. Amanhã novo trecho entre Rio Gallegos e El Calafate, com previsão de muito vento.

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Comodoro Rivadávia a Rio Gallegos – 760 kms – 28/11/2014

As mudanças já estão bem marcantes. Temperatura de 9° C e vento ainda dentro da cidade. Esse será o último trecho de deslocamento antes de começarmos efetivamente do Desafio da Ruta 40 Total.

Arrancamos com dia claro e ventos laterais moderados até Tres Cerros. Apenas a rodovia de concreto cheia de rachaduras até Caleta Oliva causa algum incômodo.
Entre Tres Cerros e Luis Piedrabuena andamos forte, com as já conhecidas retas monótonas da Ruta 3. Paramos para abastecer e almoçar no posto YPF de Piedrabuena (ótimo bife de chorizo completo) e trocamos umas idéias com um casal de poloneses que estão indo para o Brasil de bicicleta.

Prontos para sair o tempo muda rapidamente e começa a chover. Colocamos as capas de chuva e pegamos a estrada. Serão 252 kms de chuva sem parar até Rio Gallegos.
No trajeto cruzamos com o Alexandre Durigan Piu, mas a chuva nos impede de pararmos. Neste dia só filmamos e não estou conseguindo subir o vídeo. Fica para a proxima.


Oberá (Missiones) a Rosário (Santa Fé) – 940 kms – 24/11/2014

Bagagem amarrada, café da manhã tomado e as guerreiras Malagueta ADV (a minha) e a Godofreda (do Fleury) estavam prontas para pegar a estrada. Foram 940 kms de muito calor no inicio, um temporal no meio e um clima agradável no final.

Começamos descendo pela RN-14, muito bem conservada e até duplicada no trecho final, e depois passamos para as RP-127 e RP-06, em estado lastimável. Finalmente, pegamos a RN-12 e o último tramo sob o pântano que separa as províncias de Enrtre Rios e Santa Fé. Esse pedaço é belíssimo, especialmente com o cair da tarde na moldura. A Godofreda padeceu de pane seca a 500 metros do posto de gasolina após 310 kms percorridos. Uma glória para um condutor de F800 GS ADV, que nem na reserva tinha entrado. É a nossa vingança salamalicrina….. kkkkkkkkk.

Logo que entramos na RN-12 o tempo fechou de repente e o dilúvio que caiu foi de assustar. Visibilidade zero, raios cortando o céu e a tentativa de parar no acostamento de grama (lindo) para colocar a capa de chuva revelou-se a maior armadilha. O gramado esconde uma lama pegajosa e escorregadia, que nos deu trabalho para recolocar as motos no asfalto.

EVITEM O ACOSTAMENTO DE GRAMA DAS ESTRADAS ARGENTINAS!
Paramos em Nogoya para um café quente, escorrer a água das jaquetas e fazer o trecho final de 120 kms até Rosário. Finalizando, costumo ter uma tocada econômica, mas nestes 5 dias teremos um deslocamento médio de 900 kms/dia e a solução é enrolar o cabo e deixar a economia de lado. Média minha na faixa de 17 km/litro. Estou encantado com a F800 GS ADV, mas depois explico esse encantamento. Abraço a todos!

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Essa é a Ruta 40 a ser percorrida. Serão 5.120 kms em 20 dias, fora o deslocamento até Rio Gallegos (AR) e a volta pela Bolívia (Potosí, Sucre e Santa Cruz de la Sierra). Total de 13.000 kms em 30 dias.

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  1. Eduardo Pepe

    Parabéns, eu já fiz um pequeno trecho da RN. 40, e sei que é realmente muito difícil mas gratificante em termos de paisagem e realização. Vou ler com calma hoje à noite toda a sua aventura. Obrigado por reviver as lembranças. Grande abraços a todos.

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